O pensamento geográfico: de Eratóstenes a Milton Santos

O pensamento geográfico, assim como outras áreas do conhecimento, foi moldado ao longo dos séculos por diferentes concepções de mundo e avanços científicos. Desde os primeiros registros sistemáticos na Grécia antiga até as abordagens críticas contemporâneas, a Geografia reflete a relação entre sociedade e natureza, entre o local e o global, entre o concreto e o abstrato. Este texto explora a evolução do pensamento geográfico, destacando figuras emblemáticas que moldaram sua construção teórica e metodológica.

Eratóstenes e a Sistematização da Geografia

Eratóstenes (276 a.C. – 194 a.C.) é frequentemente considerado o pai da Geografia. Sua contribuição mais notável foi a medição da circunferência da Terra com notável precisão, utilizando apenas a observação solar e a geometria. Além disso, ele cunhou o termo “geografia” para descrever o estudo sistemático da Terra, abrangendo tanto aspectos físicos quanto humanos. Eratóstenes também se dedicou à criação de mapas, empregando coordenadas para localizações, avançando a cartografia.

Eratóstenes

Estrabão e a Geografia Descritiva

No início da Era Comum, Estrabão (63 a.C. – 24 d.C.) destacou-se por seu trabalho monumental Geografia, em 17 volumes. Estrabão concebia a Geografia como uma ciência essencialmente prática, voltada à compreensão do mundo para aplicações políticas e administrativas. Sua abordagem era essencialmente descritiva, focada na relação entre regiões, culturas e seus contextos físicos.

Ptolomeu e a Consolidação Cartográfica

 

Cláudio Ptolomeu (100 d.C. – 170 d.C.) foi fundamental para a consolidação da cartografia como ferramenta geográfica. Sua obra Geografia incluiu métodos para projeções cartográficas e um extenso banco de dados de coordenadas para mais de 8.000 locais. A abordagem de Ptolomeu marcou um ponto alto no pensamento geográfico clássico, influenciando mapas por mais de mil anos.

A Influência da Geografia na Idade Média

Durante a Idade Média, a Geografia no Ocidente foi fortemente influenciada pela teologia cristã e pelo pensamento medieval. Mapas como o mappa mundi refletiam uma visão eurocéntrica e simbólica do mundo. No entanto, no mundo árabe, houve avanços significativos. Geógrafos como Al-Idrisi (1100 – 1165) produziram mapas detalhados e estudos que combinaram conhecimento greco-romano com observações árabes e asiáticas, mantendo viva a tradição científica.

O Renascimento e o Renascimento Cartográfico

Com o Renascimento, a Geografia voltou a florescer na Europa, impulsionada pelas Grandes Navegações. Geógrafos como Gerardus Mercator (1512 – 1594) revolucionaram a cartografia, introduzindo projeções que ainda são amplamente utilizadas. Este período viu a expansão do conhecimento geográfico com base em explorações e o desenvolvimento de atlas, refletindo o interesse crescente por novas terras e culturas.

A Geografia Moderna e o Determinismo Ambiental

No século XIX, a Geografia tornou-se uma disciplina científica formalizada. Friedrich Ratzel (1844 – 1904), um dos fundadores da Geografia moderna, propôs o determinismo ambiental, que atribuía às condições naturais um papel predominante na moldagem das sociedades humanas. Apesar de sua influência inicial, essa abordagem foi criticada por simplificar a complexidade das relações entre sociedade e natureza.

Humboldt e a Integração entre Natureza e Sociedade

Alexander von Humboldt (1769 – 1859) foi uma figura central na consolidação da Geografia como uma ciência interdisciplinar. Sua obra monumental, Cosmos, buscou integrar os conhecimentos sobre a natureza, conectando fenômenos físicos e bióticos com a experiência humana. Humboldt destacou a interdependência entre os elementos naturais e a ação humana, defendendo uma perspectiva holística que influenciou profundamente a Geografia física e humana. Suas explorações pela América Latina foram pioneiras em descrever a biodiversidade e os sistemas ecológicos da região, marcando uma contribuição inestimável para a ciência geográfica.

Karl Ritter e a Geografia Comparativa

Karl Ritter (1779 – 1859), contemporâneo de Humboldt, destacou-se por sua abordagem comparativa na Geografia. Ele via a Terra como um sistema integrado, onde as regiões estavam interconectadas por processos naturais e sociais. Ritter enfatizou a importância de estudar regiões em relação umas às outras, utilizando uma perspectiva histórica para compreender como os ambientes moldam as sociedades humanas. Sua contribuição foi essencial para estabelecer a Geografia como uma disciplina científica.

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Vidal de La Blache e a Escola Possibilista

No início do século XX, o geógrafo francês Paul Vidal de La Blache (1845 – 1918) contestou o determinismo ambiental, desenvolvendo o possibilismo. Ele enfatizou que, embora o meio natural ofereça possibilidades, as sociedades humanas têm a capacidade de escolher e moldar seu ambiente com base em fatores culturais e históricos. Essa abordagem teve grande impacto na Geografia Humana e na análise regional.

Carl Sauer e a Paisagem Cultural

Carl Sauer (1889 – 1975), um dos principais representantes da escola cultural nos Estados Unidos, introduziu o conceito de paisagem cultural. Ele argumentava que a paisagem física é continuamente transformada pela ação humana, refletindo as práticas e valores de uma sociedade. Essa perspectiva enfatizou a importância da cultura na modelagem do espaço geográfico.

A Revolução Quantitativa e a Geografia Teórico-Quantitativa

Nas décadas de 1950 e 1960, a Geografia passou por uma revolução quantitativa. Geógrafos como Peter Haggett promoveram o uso de métodos matemáticos e estatísticos para analisar fenômenos espaciais, buscando maior rigor científico. Embora tenha trazido avanços significativos, essa abordagem foi criticada por negligenciar fatores qualitativos e contextos culturais.

David Harvey e a Geografia Crítica

David Harvey, uma figura central na Geografia crítica, desafiou a abstração da revolução quantitativa, propondo uma abordagem marxista para entender as dinâmicas espaciais. Sua obra Social Justice and the City (1973) explorou as relações entre capitalismo, desigualdade e espaço urbano, transformando a Geografia em uma ferramenta para a crítica social.

Yi-Fu Tuan e a Geografia Humanística

Yi-Fu Tuan (1930 – 2022) é amplamente reconhecido como um dos fundadores da Geografia humanística. Sua abordagem enfatizou as experiências subjetivas e emocionais das pessoas em relação aos lugares. Em sua obra Topophilia, Tuan explorou como as conexões afetivas e culturais moldam a percepção do espaço. Sua contribuição foi crucial para ampliar os horizontes da Geografia, incorporando aspectos fenomenológicos e existenciais.

Milton Santos e a Geografia Humanista

 

Milton Santos (1926 – 2001), um dos maiores geógrafos brasileiros, trouxe uma perspectiva humanista e crítica à Geografia. Ele enfatizou o papel das técnicas, do tempo e do espaço na organização da sociedade. Sua obra Por Uma Outra Globalização critica os efeitos desiguais da globalização neoliberal, propondo uma visão mais inclusiva e solidária.

A globalização atual é perversa porque aprofunda desigualdades, amplia exclusões e privilegia poucos em detrimento de muitos, mas ela carrega, contraditoriamente, a possibilidade de uma outra globalização, mais solidária e mais humana.

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