As categorias de análise do espaço geográfico segundo Milton Santos
Milton Santos, um dos principais geógrafos brasileiros, propôs a análise do espaço geográfico a partir de quatro categorias fundamentais: forma, função, processo e estrutura. Essas categorias permitem compreender como o espaço é produzido historicamente e como ele reflete as contradições e desigualdades da sociedade. Para exemplificar essa abordagem, compararemos dois bairros emblemáticos da cidade de São Paulo: Morumbi e Paraisópolis. Embora estejam geograficamente próximos, representam realidades socioespaciais contrastantes.
Forma: a materialização do espaço
A forma refere-se aos elementos concretos e visíveis do espaço geográfico, como ruas, edifícios, praças e infraestrutura urbana. Ela é o resultado das ações humanas sobre o território em diferentes momentos históricos.
No caso do Morumbi, a paisagem é marcada por arranha-céus de alto padrão, condomínios fechados, ruas largas e arborizadas, além de grandes avenidas e shopping centers. O bairro foi planejado para atender a uma elite econômica, refletindo uma urbanização verticalizada e fortemente controlada pelo mercado imobiliário.
Já em Paraisópolis, a forma se caracteriza por moradias autoconstruídas, ruas estreitas e sinuosas, ausência de planejamento urbano e ocupação densa. A favela, que surgiu de forma espontânea, foi crescendo sem infraestrutura adequada, o que resulta em casas sobrepostas, vielas de difícil acesso e uma urbanização caótica.
Essa diferença nas formas espaciais evidencia o contraste entre um espaço planejado e um espaço que se construiu a partir da necessidade da população trabalhadora de encontrar moradia próxima aos centros de emprego.
Fronteira entre os bairros de Paraisópolis e Morumbi-SP.
Função: o uso social do espaço
A função diz respeito ao papel que cada espaço desempenha na sociedade e como ele é utilizado pelos diferentes grupos sociais.
O Morumbi tem a função de abrigar uma população de alta renda e oferecer serviços e infraestrutura de luxo. Grandes empresas, hospitais particulares e centros comerciais reforçam o caráter elitizado do bairro. Além disso, é um espaço de lazer para seus moradores, com clubes e praças bem cuidadas.
Por outro lado, Paraisópolis cumpre uma função distinta: é uma área de moradia para milhares de trabalhadores que muitas vezes prestam serviços na própria região do Morumbi. Além disso, desempenha um papel econômico relevante ao abrigar comércios populares, pequenas oficinas e empreendimentos informais. A ausência de infraestrutura pública suficiente, no entanto, faz com que a oferta de serviços seja desigual, resultando em dificuldades no acesso à saúde, transporte e saneamento.
Assim, embora geograficamente próximos, os bairros exercem funções distintas, evidenciando as desigualdades da urbanização brasileira.
Processo: a dinâmica de transformação do espaço
O processo refere-se às transformações contínuas do espaço ao longo do tempo, impulsionadas por fatores sociais, econômicos e políticos.
O Morumbi experimentou um processo de valorização imobiliária desde meados do século XX, quando se consolidou como um bairro nobre. Grandes incorporadoras investiram na construção de edifícios de alto padrão, e a expansão de infraestruturas como shoppings e hospitais elevou ainda mais o preço do solo urbano. Mais recentemente, com a crescente preocupação com segurança, houve um aumento no número de condomínios fechados e edifícios fortificados.
Já Paraisópolis passou por um processo distinto. Inicialmente uma ocupação irregular, o bairro cresceu sem planejamento e enfrentou décadas de negligência por parte do poder público. No entanto, a partir dos anos 2000, houve investimentos em urbanização, com programas de regularização fundiária e melhorias em infraestrutura, como pavimentação e instalação de redes de esgoto. Ainda assim, a urbanização segue incompleta e desigual, e o bairro continua enfrentando desafios como a precariedade habitacional e a vulnerabilidade social.
Os processos que moldam os dois bairros são, portanto, antagônicos: enquanto um se valoriza e se fecha, o outro se expande na luta por melhores condições de vida.
Estrutura: a lógica da organização do espaço
A estrutura diz respeito à forma como os elementos do espaço estão organizados, refletindo as relações de poder e a lógica do capital na produção do território.
O Morumbi é um exemplo claro da estrutura urbana baseada na segregação socioespacial. O bairro possui grandes condomínios de luxo que funcionam como enclaves fortificados, separados do espaço público e protegidos por muros e sistemas de vigilância. Há uma forte presença de infraestrutura de alto nível, mas essa riqueza é acessível apenas a uma parcela privilegiada da população.
Em Paraisópolis, a estrutura urbana reflete a lógica da exclusão e da desigualdade. Mesmo sendo um território denso e populoso, a oferta de serviços públicos é menor do que no Morumbi. As dificuldades de mobilidade, a presença de moradias precárias e a carência de equipamentos urbanos essenciais demonstram como a estrutura urbana privilegia determinadas áreas da cidade em detrimento de outras.
Apesar dessas diferenças, há uma interdependência estrutural entre os bairros. Muitos trabalhadores de Paraisópolis prestam serviços no Morumbi, seja como empregados domésticos, seguranças, motoristas ou em outras funções. Essa relação evidencia uma estrutura social que perpetua a desigualdade, onde a proximidade geográfica não significa integração socioeconômica.
As desigualdades vistas do espaço entre Paraisópolis e Morumbi-SP.
Algumas considerações finais
A análise do espaço geográfico a partir das categorias de Milton Santos permite compreender como os bairros Morumbi e Paraisópolis, apesar de vizinhos, representam realidades opostas dentro da lógica urbana de São Paulo, mas o mesmo pode ser observado em muitos outros espaços geográficos. A forma materializa as desigualdades, a função reflete as diferentes utilizações do espaço, o processo mostra dinâmicas contrastantes de urbanização e a estrutura revela as relações de poder que organizam o território.
O estudo dessas categorias é importante para sistematizar e compreender as contradições da cidade contemporânea e para pensar políticas públicas que possam reduzir as desigualdades, promovendo um desenvolvimento urbano mais justo e inclusivo.

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